quinta-feira, 22 de abril de 2010

Falou em arrumar a mochila para uma aventura?

A vida sedentária na terceira idade vem, cada vez mais, perdendo espaço para as atividades de ginástica e lazer. Pelo menos é o que comprova um grupo composto por mais de 50 idosos de Capixaba, a maioria mulheres, organizado pela professora Marli Fontana desde o ano de 2004.

Falou em arrumar a mochila e pegar a vara de pesca para uma aventura, eles vibram de ansiedade. Na sexta-feira (16), uma hora antes da partida para um dia de lazer organizado pelo Programa Justiça Comunitária - Núcleo Capixaba, com destino à Colônia do "Seu Qualhada", todos já estavam à espera do ônibus. Ficar em casa brigando com o relógio passa longe de ser o hobby favorito desse grupo.

Os convidados pescaram, tomaram banho de açude, deliciaram-se com um almoço, muitas frutas, sombra e água de coco geladinha. No final da tarde, um piquenique com direito a sorteios de prêmios, redes para uma soneca e bolinhas. Isso mesmo, todos ganharam bolinhas para fisioterapia!

Entre os atletas do bem-estar, encontramos o nadador José Franklin da Silva (72), que nem mesmo a deficiência visual o impediu de nadar pela parte profunda do açude. Claro, orientando-se pela voz da flor da terceira idade, Marli Fontana. "É bom demais. Melhor que isso não há. Adoro nadar. Estou muito feliz com esse dia aqui", disse José, que também não deixou de plantar bananeira na água.

As pescadoras voltaram para casa com o jantar garantido. "Estava muito bom para mariscar. Peguei cará, piau. Para mim isso é muita diversão", afirmou dona Alba de Freitas de Souza (68), mãe de nove filhos.

E para quem não quis praticar o nado e a pesca, a equipe do Justiça Comunitária realizou dinâmicas de grupos para animar o dia. Na dinâmica da “teia de aranha”, onde todos falariam um pouquinho de si mesmo, houve até declaração de amor da dona Neném para seu esposo, Francisco Chagas. Meses atrás, os dois começaram uma paquera durante as atividades do grupo e hoje estão casados. Dona Neném aproveitou o momento para dizer aos solteiros da terceira idade que não percam tempo, porque é muito bom ter uma companhia. "Estou muito feliz com o meu companheiro. Ele é muito importante na minha vida. Por isso digo para todos vocês que estão solteiras arrumar logo um parceiro”, recomendou.

A professora Fontana agradeceu a equipe do programa, já contando com futura parceria nas atividades do grupo. "Agora, o Justiça Comunitária vai virar parceiro oficial da terceira idade, pois depois desse evento, que foi maravilhoso, vão surgir as cobranças. Podem apostar, eles (os idosos) nunca esquecem esses momentos. O evento realmente foi maravilhoso. As pessoas da melhor idade amaram o dia de lazer e mais uma vez demonstraram que ser idoso não é sinônimo de sedentarismo, tampouco sinônimo de que estão no final da vida", enfatizou. E acrescentou: "Pelo contrário, tem-se muito a viver e ser feliz depois dos 60, principalmente quando é possível ter uma qualidade de vida que supra as necessidades físicas, sociais e emocionais por meio de parcerias como o do Programa Justiça Comunitária. Esse evento realizado demonstra que as pessoas da melhor idade já contribuíram muito na formação do mundo em que vivemos hoje. Nada mais justo do que dispensar parte do nosso trabalho, de nossa dedicação para propiciar a eles dias memoráveis como esse promovido pela Justiça. Só temos a agradecer", destacou a professora.

A atividade contou com a parceria da Prefeitura de Capixaba, Seaprof, Secretaria de Desenvolvimento Social, Secretaria Municipal em Educação, Secretaria Municipal em Saúde, Varejão Pingo, Baratão Capixaba, Casa de Carne Três Irmãos, Panificadora Styllus, Agropecuária Boi Ouro, vereadores Rômulo Barros, José Augusto, Cláudio Feitosa, Zeca Barros, Kiko, Armando D'áines, Anadir Oliare e Chico Gomes, professoras Zana e Rosangela Costa, empresária Elenilda Xavier, estudante Neivo e os proprietários do local do evento, "Seu Qualhada" e Dona Marta.

Programa Justiça Comunitária
Idealizado e coordenado pela Desembargadora Eva Evangelista, o Programa Justiça Comunitária é desenvolvido pelo Tribunal de Justiça Acreano desde 2002, inicialmente em convênio com o Ministério da Justiça.
Desde 2006 o Programa vem sendo executado em parceria com a Prefeitura de Rio Branco e recentemente foi fortalecido por conta dos convênios nº 034/2008, do TJAC com o Programa Nacional de Segurança Pública com Cidadania - Pronasci, do Ministério da Justiça, e nº 700546/2008, com a Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República. Esta última parceria tornou-se possível pelas emendas parlamentares apresentadas pelos deputados federais Nilson Mourão, Ilderlei Cordeiro, Sérgio Petecão e Flaviano Melo. Em Rio Branco, o Programa é desenvolvido em 35 bairros carentes, divididos em seis regionais.
No ano de 2009, pela primeira vez, o mesmo trabalho realizado com sucesso na Capital começou a ser colocado em prática em outros dois municípios do Estado - Capixaba e Epitaciolândia -, onde também vem realizando bons resultados na solução rápida e amistosa de pequenos conflitos, por meio da mediação e conciliação.
Em Capixaba, o Núcleo do Justiça Comunitária funciona de segunda a sexta-feira, no período das 07 às 13 horas, no prédio da Câmara Municipal da Cidade.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Produtores rurais - “sem lenço e sem documento”


No Brasil, desde os tempos mais remotos, reforma agrária é sinônimo de má distribuição de terras. Enquanto a maior parte da terra está nas mãos dos latifundiários, os pequenos produtores vão vivendo a mínguas, “sem lenço e sem documento”.

É bem verdade que a expressão “desenvolvimento sustentável” impera nos discursos governamentais. O discurso é elogiável. A prática, invisível.

Por um lado, o Governo proíbe o pequeno produtor de desmatar, tocar fogo em seu roçado, prometendo um sonho ainda longe de virar realidade no Acre, que é a garantia de uma agricultura sustentável de fato e de direito para todos. Por outro lado, a desesperança invade o agricultor, pois, como essa proposta do governo não chega ao campo em seu “desenho perfeito”, ele se cansa de esperar, optando por cultivar suas lavouras de modo tradicional, “recebendo”, por essa atitude, multas elevadas, expedidas por órgãos ambientais, que se preocupam mais em saber os passos dos pequenos do que saber os passos daqueles que mais devoram a nossa floresta, sem dó nem piedade, na corrida pelo lucro financeiro.

Já que as promessas não são cumpridas, a saída que resta é pressionar. Ao longo da história, fazer pressão ao Governo sempre gerou resultados satisfatórios para diversos segmentos, seja qual for: trabalhistas, estudantis, rurícolas. A pressão pelos direitos é legítima. É a vontade do povo em fazer com que o Estado devolva em serviços ao cidadão, o capital arrecadado por meio dos impostos.

A finalidade de a arrecadação ser transformada em serviços à comunidade, teoricamente, é muito positiva. Mas, nesse meio, entra também aquela velha história da corrupção política no Brasil, que mesmo existindo mecanismos de controles, tais como as auditorias realizadas por tribunais de contas estaduais e federais, a corrupção é alarmante. O cidadão brasileiro já se deparou com o tal do “mensalão”, “mensalinho”, dinheiro na mala, na cueca, contratos de publicidade superfaturados, estatais como a Petrobrás envolvida em propinas, e por aí vai, vai, vai! Obviamente, tudo isso leva o Brasil ao caos.

Contudo, mesmo que a batalha contra os assombros do Sistema seja árdua, a vitória não é utópica para quem tem força e voz ativa para lutar por melhorias.

Hora da pressão:
Produtores do Alto Acre unem forças e cobram do Governo o cumprimento das promessas

Na madrugada de hoje, mais de 500 famílias de camponeses do Alto Acre (Capixaba, Xapuri, Epitaciolândia, Brasiléia e Assis Brasil) estavam preparadas para fechar a BR 317, km 78, local próximo à zona urbana do Município de Capixaba, com o lema “Movimento dos Povos Oprimidos do Alto Acre”.

Dias antes, o superintendente da Policia Rodoviária Federal do Acre foi comunicado do fechamento da BR 317. Com essa informação em mãos, as polícias estaduais e federais impediram que caminhões lotados de produtores partissem para o local do bloqueio. Agora o Governo tenta negociar com os produtores.

Exigir que o Governo do Acre cumpra a promessa de promover qualidade de vida no campo era o principal objetivo do movimento. Detalhe: nenhuma novidade para o Governo Binho Marques, uma vez que enfatizou em campanha eleitoral que a prioridade de sua gestão seria o homem do campo, já que o Governo anterior, (Jorge Viana), concentrou suas ações, sobretudo na cidade.

Dentre as reivindicações, os produtores destacam a melhoria de acesso às estradas vicinais da região, anistia às pesadas multas emitidas pelo IBAMA e IMAC, condições para a prática da agricultura familiar sem o uso do fogo, crédito habitação, regularização fundiária das áreas de posse, fortalecimento do agroextrativismo, entre outras.

“A Polícia impediu o movimento e o Governo vai tentar negociar com a gente. Se eles não negociarem conforme queremos, nós vamos fechar a BR. O movimento ainda não parou”, advertiu o Técnico de Organização Produtiva da Cooperativa Agroextrativista dos Produtores de Epitaciolândia e Brasiléia (CAPEB), José da Silva Pereira.

sábado, 3 de outubro de 2009

Varadouro 2009! Verde, verde!

Foto: Nattércia Damasceno
O Varadouro (Festival de Música Independente do Acre) aconteceu no Amazônia Rio, nos dias 25, 26 e 27 de setembro, reunindo 21 bandas, não só do Acre, mas de outros estados brasileiros como Amapá, Pará, São Paulo, Distrito Federal, Paraná, Ceará e Pernambuco. Além das atrações nacionais, o Festival contou com duas bandas internacionais: La Mente, do Peru, e Mostruo, da Argentina.
Para ressaltar o nome, o evento passou a ideia de estarmos em seringais. Quem marcou presença no Festival pôde trilhar pelos varadouros dos seringais Astral, Cachoeira e Bom Destino. As bandas misturavam-se com o verde das árvores que ilustrava o fundo do palco.
Mas, alguns seringueiros da “hipermodernidade” acharam o Varadouro muito longe, com muitas formiguinhas, estradas de seringa com ladeiras imensas para chegar ao Seringal Astral. Mas, é perdoável, pois esses seringueiros da “hipermodernidade” nunca participaram de empates, nunca acordaram às três da madrugada para varar quilômetros de seringa, correndo o perigo de serem surpreendidos por bichos bem maiores que formigas. Tudo isso para garantir comida para seus filhotes, já que a borracha só enriquecia os patrões.
Outros discordaram do fato de o evento cobrar entrada depois das 20 horas. Segundo a estudante Maíra Menezes, cobrar entrada não faz sentido num evento que tem o incentivo da Lei Rouanet. “Essa lei de incentivo foi criada para promover a ampliação do acesso à cultura. Para a cultura ser livre todo mundo tem que ter acesso a ela, independentemente de horários. E eu percebi que o Varadouro não está atingindo a classe menos favorecida”, opinou. Já sofremos tanto como seringueiros. Afinal, não se paga para entrar na floresta. Ou paga-se? Pelo menos, na floresta acreana, não pagamos. Ou pagamos?

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Kayo Roberto Vieira, 34 anos, Analista de Finanças e Controle, responde pela chefia da Controladoria Regional da União no Acre desde 2005, instituição que tem como missão a defesa do patrimônio público e o combate aos desvios e desperdícios de recursos públicos federais. O analista trará informações pertinentes acerca da boa utilização dos recursos públicos, e de alguns programas de capacitação destinados aos agentes públicos e a comunidade como um todo.

JC - Qual o trabalho que a Controladoria Geral da União exerce junto aos Municípios?
Kayo - A CGU realiza fiscalização acerca da aplicação dos recursos públicos federais por parte do Município, recursos estes que podem se dar por meio de transferência direta ou por convênio. Além das fiscalizações, a CGU possui o programa "Olho vivo no dinheiro público", programa que visa educar e prevenir, que tem por objetivo capacitar agentes públicos nas áreas orçamentárias e financeiras e disseminar a idéia de controle social junto aos conselheiros municipais e demais membros da comunidade.

JC - A fiscalização da CGU junto aos municípios se dar por meio de sorteios em nível nacional, além dos sorteios existe outra forma do município receber a fiscalização da CGU?
Kayo - Sim. Eventualmente são realizadas fiscalizações em programas governamentais ou convênios específicos. Outra forma de fiscalização é aquela oriunda de denúncias formuladas pela população ou por requisição de outros órgãos como Ministério Público ou Polícia Federal.

JC - Quando alguém desejar denunciar atos de corrupção de que forma deve fazê-lo?
Kayo - Em se tratando da aplicação de recursos federais a denúncia pode ser formulada por meio do acesso ao site da CGU, www.cgu.gov.br, ou formalizada e entregue na sede da CGU no Estado.

JC - As denúncias devem ter obrigatoriamente o seu autor identificado?
Kayo - Preferencialmente sim.

JC - A CGU realiza políticas de capacitação para os prefeitos?
Kayo - Sim, há o Programa de Fortalecimento da Gestão Municipal, que também é realizado por meio de sorteios públicos e objetiva orientar os agentes públicos, das cidades com até 50 mil habitantes, sobre a correta aplicação de recursos repassados pelo Governo Federal. Porém, para participar do sorteio se faz necessária à inscrição do Município, o que não tem ocorrido no nosso Estado, tendo em vista que só temos um município inscrito.

JC - O que leva os administradores a incorrerem em irregularidades?
Kayo - A partir das constatações contidas nos relatórios do Programa de Fiscalização por Sorteios Públicos da Controladoria Geral da União, verificou-se que boa parte das irregularidades observadas nos municípios fiscalizados não tem relação com a intenção de desviar recursos ou descumprir a lei, mas está relacionada, sobretudo, com a falta de informação e conhecimento técnico.

JC - Qual a orientação para os gestores municipais evitarem as irregularidades?
Kayo - A orientação que pode ser dada é no sentido de que busquem conhecer melhor as normas relacionadas aos aspectos orçamentários e financeiros da administração pública (Lei de Responsabilidade Fiscal, Lei de Licitações e Contratos, normas sobre convênios, etc.) e que invistam em capacitação e treinamento dos servidores municipais ligados a essas áreas.
Informações sobre transferências de recursos federais, visite o site:
www.portaltransparencia.gov.br

sábado, 22 de março de 2008

Consumo de água A H2C - Consultoria e Planejamento de Uso Racional da Água, afirma que o brasileiro gasta cinco vezes mais água do que o volume indicado como suficiente pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
O recomendado por pessoa são 40 litros diários. A média chega a 200 litros por dia.
Um norte-americano consome 500 litros de água por dia, um europeu, 200 a 300 litros, um africano da região saariana dispõe de 10 a 20 litros de água.
Durante a Eco-92 foi recomendada a criação do Dia Mundial da Água. A Organização das Nações Unidas (ONU) escolheu a data, 22 de março.
O Dia Mundial da Água elege um sub-tema para discutir cada ano. Em 2008, é o saneamento básico que entra em pauta. A falta de esgoto destrói mananciais e ajuda a diminuir as reservas hídricas.
No Brasil 67% dos domicílios estão ligados à rede de esgoto.
Fonte: Organização Mundial da Saúde

O que a abundância nos torna
Hoje, 22 de março, é comemorado o Dia Mundial da Água. Ocasião boa para reforçar os cuidados que devemos ter com a mesma.
O discurso de que água é para ser usada com responsabilidade não é novidade para os brasileiros. Depois da difusão das informações sobre o aquecimento global, não se fala em outra coisa: a água precisa ser preservada.
Mas, por que o desperdício continua enorme, principalmente, nos Estados que possuem grandes reservas de águas potáveis?
Simples! Além de muitos discursos de preservação não serem transformados em ações, certamente trata-se também de uma questão óbvia que nos leva a pensar na grande diferença que há entre crescer em meio à escassez do sertão nordestino versus crescer em meio ao mar de água doce que a nossa região oferece.
O sertanejo já nasceu sentindo na pele o quanto a falta de água faz sofrer. E como todo sofrimento gera disciplina, aprendeu desde criança que esse líquido tão precioso precisa ser preservado. Assim, não desperdiça sequer uma gota d'água.
Agora, geralmente, o povo da região acreana, acostumado com H2O em abundância, em vez de aproveitar a água da chuva, se delicia lavando calçadas com água potável. Não se preocupa em economizar na hora de escovar os dentes, passa mais tempo com o chuveiro ligado do que o necessário, etc. Atitudes estas, de um povo que desconhece ou ignora o valor que a água tem pelo simples fato de a abundância gerar a sensação de que a mesma jamais acabará.
Afinal, o que a abundância nos torna mesmo? Infelizmente, nos tona seres imediatistas, totalmente despreocupados com o futuro, ou seja, seres que só vislumbram vantagens imediatas.
E é por isso que devemos, cada vez mais, lutar contra esse tipo de comportamento.
Para tanto, o grande número de pessoas que já possui um sentimento diferente diante da abundância, vem fazendo a diferença no Brasil e no mundo. Nesse caso, o importante é nos tornarmos diferentes, sermos as exceções em detrimento dos imediatistas.
Bons hábitos
Quando lavar a louça, não deixe a água escorrer enquanto ensaboa. Se quiser economizar ainda mais, encha duas vasilhas com água, uma para molhar a louça e outra para tirar o detergente.
Use a máquina de lavar roupas quando ela estiver cheia. Fazendo isso, você pode economizar 3.600 litros de água por mês. Verifique também o nível de água da máquina. Nem sempre ele precisa estar no máximo.
Ao lavar a roupa, aproveite a água do tanque ou da máquina, que já está com sabão, para lavar um piso ou a calçada.
Use uma vassoura em vez de mangueira para limpar a calçada.
Reduza seu tempo de banho em um ou dois minutos e você economizará 540 litros de água por mês.
Feche a torneira enquanto escova os dentes e economize até 1.000 litros de água por mês.
Feche a água enquanto você ensaboa seus cabelos e economize até 500 litros de água por mês.
Use um regador para molhar as plantas em vez de mangueira.
Se possível, substitua válvulas de descarga e bacias de sanitários fabricados antes de 2003.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Entrevista geoglifos

Miriam Bueno é geógrafa formada pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e Doutora em Ensino e História das Ciências da Terra, pela Unicamp - Campina - SP. É professora há mais de 28 anos, trabalha no Laboratório de Geoprocessamento da Ufac, e atualmente é Coordenadora Regional do Projeto de Pesquisa sobre Geoglifos do Acre. Projeto este, que conta com o apoio do Governo do Estado do Acre e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); e que tem como Coordenadora Geral, a arqueóloga Denise Shaan da Ufpa (Universidade Federal do Pará).


Jornal Capixaba - Primeiramente gostaríamos que a senhora definisse geoglifos.
Miriam Bueno - Etimologicamente, geo significa terra e glifos significa marcas, ou seja, marcas na terra. Mas, por enquanto, o que se sabe é que são sítios arqueológicos. Quem fez, para que fez, como e quando não se sabe.

Jornal Capixaba - Assim, o objetivo da pesquisa que estão coordenando seria a identificação de respostas a essas interrogações.
Miriam Bueno - Certamente. Os primeiros geoglifos do Acre foram descobertos pelo arqueólogo Ondemar Dias em 1977. Depois disso, novas descobertas foram feitas por Alceu Ranzi (Paleontólogo). Através do projeto que, além de doutores, engloba também vários acadêmicos de geografia e de engenharia florestal da Ufac, inclusive uma acadêmica de geografia de Capixaba, a aluna Alderina Moura, com certeza pretendemos alcançar informações que enriqueçam os nossos conhecimentos sobre geoglifos do Acre. Estamos tendo todo o apoio para isso.

Jornal Capixaba - Quando os estudos começaram e o que já foi feito até agora?
Miriam Bueno - O projeto foi aprovado em janeiro de 2008 e conta com a parceria do Governo do Estado e CNPq. Até hoje já foi feito o que chamamos de prospecção, fizemos o mapeamento das áreas, escavações para sondagens. E com isso, já identificamos cerâmicas, alguns artefatos arqueológicos, ossos, etc.

Jornal Capixaba - Por que a preservação dos geoglifos é importante para o Acre?
Miriam Bueno - Primeiro pelo ponto de vista histórico, pois nós podemos descobrir a verdadeira história dos povos da floresta; segundo pelo ponto de vista dos pesquisadores em arqueologia, envolvendo novos alunos e pessoas já formadas; pela gestão e ordenamento territorial (carro-chefe do Governo para orientar a definição e implementação de suas políticas); pela possibilidade do uso desses sítios para o turismo, pois como Capixaba está na linha do desenvolvimento, de repente o município poderá estar explorando isso. Só o fato da recente descoberta de um geoglifo a 1000 metros da Prefeitura de Capixaba, nas terras do senhor Bimbarra, (em homenagem ao proprietário da terra, o geoglifo foi batizado de Bimbarra), já abre caminho para uma nova atividade turística para a região.

Jornal Capixaba - E como se dá essa preservação? Que consciência a população deve ter em relação a esses sítios arqueológicos?
Miriam Bueno - É importante ressaltar que os geoglifos do Acre estão em fase de estudos científicos e que ainda não podemos criar mecanismos de utilização dos mesmos, pois se não preservarmos antes de fazermos o estudo, corremos o risco de perder informações valiosas para a ciência. Mas, depois dos resultados, podemos analisar as possibilidades de uso, preservando claro, a história. Isso porque estamos resgatando uma história que não existe mais ninguém para contar, pois se trata de informações existentes há mais de 1000 anos. Quanto à população, principalmente, a rural, pedimos sempre que ela seja parceira dos nossos trabalhos, pois há grandes possibilidades da existência de Geoglifos dentro da mata, fato não possível de identificação por meio de sobrevôo. Desse modo, é muito importante que a comunidade dê a sua contribuição para a ciência nos ajudando com a identificação das áreas que possuem geoglifos.

Jornal Capixaba - É difícil o processo de identificação pela comunidade? E como deve proceder, caso encontre essas marcas na terra?
Miriam Bueno - Há geoglifos em forma de círculos, linhas, quadrados, etc. A facilidade maior de identificá-los, é através de sobrevôo, e como se trata de mata fechada, não tem como utilizarmos esse recurso. A descoberta via terrestre não é um método fácil, mas a importância da divulgação de como se apresentam os sinais é determinante para a preservação. Numa área já desmatada, por exemplo, muitas vezes, sem conhecimento, as pessoas se deparam com uma vala e aproveitam para fazer dali uma reserva de água para os bovinos. É lamentável, mas muitos geoglifos já sofreram algum tipo de impacto por falta de conhecimento a respeito. Então, sabendo da importância desses sítios para a ciência, as pessoas ficarão mais conscientes em contribuir com a pesquisa. Agora caso alguém encontre geogli-fos em sua propriedade, procurar tornar pública a descoberta, entrando em contato com o IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), Prefeituras, Secretaria de Meio Ambiente do seu Município, ou com o Departamento de Geografia da Ufac.

Jornal Capixaba - Até hoje, quantos geoglifos foram descobertos no Acre?
Miriam Bueno - Até agora, ao todo, foram descobertos 120 geoglifos. Em Capixaba já identificamos 31. Temos o geoglifo Hortigranjeira, o Gavião, o Ciço cara-de-pau, vários na Fazenda Crixá, Santa Gertudes, e a mais recente descoberta, o geoglifo Bimbarra.

Jornal Capixaba - A Prefeitura de Capixaba tem dado importância às descobertas?
Miriam Bueno - Posso afirmar que a Prefeitura entrou em contato com a gente para discutir o assunto. No momento, estamos aguardando da mesma a definição de uma data para a realização de uma reunião. Tudo indica que eles estão se mobilizando.

Jornal Capixaba - Para finalizar, temos conhecimento de que a Álcool Verde contratou uma equipe multidisciplinar para realizar estudos acerca dos geoglifos nas áreas de ocupação da Usina. Isso com a intenção de reformular o EIA (Estudo de Impacto Ambiental) e em seguida, elaborar o RIMA (Relatório de Impacto Ambiental). A senhora faz parte dessa equipe?
Miriam Bueno - Sim. E é importante destacar o empenho da Álcool Verde nesse sentido. A responsabilidade que o Grupo Farias tem com a preservação dos sítios arqueológicos é muito grande. Por conta disso, o estudo hoje está bem adiantado.